Às vezes, as crianças só estão expressando a necessidade de serem vistas.
Há crianças que aprendem cedo demais que não havia espaço para serem frágeis.
Choram menos do que precisam, pedem menos do que sentem e vão, aos poucos, aprendendo a dar conta sozinhas do que ainda nem conseguem nomear.
Por fora, parecem firmes. Às vezes, maduras demais para a idade. Por dentro, ainda existe medo, insegurança e uma criança tentando não incomodar.
Há também crianças que são protegidas em excesso.
Tão protegidas, que não têm contato com experiências de dor necessárias ao seu desenvolvimento emocional.
Crescem com mais dificuldade de lidar com frustrações e com o que não se resolve de imediato. E, sem esse aprendizado, podem não sustentar o que sentem quando a vida não responde como esperam.
Caminhos diferentes, experiências que se encontram.
De um lado, a criança que se cala diante do que sente.
Do outro, a criança que não consegue regular suas emoções.
As duas compartilham a solidão que nasce quando a dor não é vista.
E quando o sofrimento não encontra espaço, ele não desaparece — apenas deixa de ser reconhecido.
E isso pede olhar.
Um olhar que não se detenha no comportamento, mas que consiga acolher.
E é nesse movimento de perceber o outro para além do que aparece que algo se transforma.
Porque, no fundo, o que toda criança precisa não é não sentir — é poder sentir com alguém por perto.
É perceber que quem cuida dela está ao seu lado, e não contra ela.
Rita Martucci
Psicóloga

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