Por que algumas pessoas têm tanto medo de perder quem amam?
Por que certos silêncios machucam tanto?
Por que, às vezes, uma pequena distância parece uma ameaça?
Por que o final de um relacionamento pode se equiparar ao fim do mundo para algumas pessoas?
Talvez a resposta não esteja apenas no presente.
Talvez esteja na criança que fomos um dia.
O psiquiatra inglês John Bowlby, criador da Teoria do Apego, observou que as primeiras relações da criança com as pessoas que cuidam dela ajudam a construir a forma como aprendemos a amar, confiar e nos relacionar ao longo da vida.
Quando nos apaixonamos, além de levarmos para a relação quem somos hoje, levamos também a criança que fomos.
A criança que se sentiu segura e acolhida costuma encontrar mais facilidade para confiar, esperar e atravessar os inevitáveis desencontros de qualquer relacionamento.
Já a criança que viveu inseguranças, medos ou experiências difíceis pode carregar para a vida adulta marcas dessas experiências, despertando sentimentos que nem sempre pertencem ao presente.
Embora o tempo passe, essas experiências podem continuar influenciando a forma como nos relacionamos, aparecendo no medo da rejeição, na necessidade constante de confirmação, na dificuldade de confiar ou na sensação de que o amor do outro nunca é suficiente.
Por isso, quando duas pessoas se encontram, nem sempre são apenas dois adultos que se relacionam.
Também estão presentes as crianças que eles foram um dia.
Talvez a maior dificuldade seja perceber quando é o adulto que está falando e quando é a criança, ainda marcada por experiências antigas, tentando ser ouvida através da relação.
O autoconhecimento pode nos ajudar nesse caminho.
Não para apagar a criança que vive dentro de nós, mas para compreendê-la e acolhê-la.
Porque, quando ela ocupa todo o espaço, o amor pode se confundir com medo, dependência ou necessidade.
Mas, à medida que fazemos as pazes com a nossa própria história, o adulto encontra mais espaço para estar presente.
Porque não podemos consertar a infância que tivemos.
Mas podemos olhar para a história de cada um de nós com novas lentes e, assim, compreender e ressignificar as marcas que podem ter ficado.
E talvez seja por esse caminho que as vozes do passado possam ir perdendo a força, abrindo espaço para o encontro e a comunicação que nascem no presente.
As marcas da infância nos relacionamentos amorosos

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